Saúde
Gabriel Ganley: entenda por que fisiculturistas usam insulina e os perigos da prática
Em entrevista ao portal LeoDias, o médico endocrinologista Dr. James Barbosa explicou os riscos do uso de insulina para fins estéticos em pessoas sem diabetes e os perigos da hipoglicemia
A morte do fisiculturista e influenciador fitness Gabriel Ganley, de 22 anos, segue cercada de dúvidas. O jovem foi encontrado sem vida no apartamento onde morava, na Mooca, Zona Leste de São Paulo. Uma mensagem de voz atribuída a um amigo próximo de Gabriel, que passou a circular nas redes sociais, levantou a hipótese de que o atleta teria sofrido um quadro de hipoglicemia após aplicar insulina na noite anterior à morte. Em entrevista ao portal LeoDias, o médico endocrinologista Dr. James Barbosa explicou os riscos do uso de insulina para fins estéticos em pessoas sem diabetes e os perigos da hipoglicemia.
“O Ganley aplicou insulina ontem à noite e ele começou a ter hipoglicemia e, nessa, ele dormiu. E não pode, tá ligado? Ele dormiu, não acordou mais. Bizarro”, diz o homem no áudio que viralizou nas redes sociais após a morte do influenciador.

“A fama da insulina no fisiculturismo vem do fato de ela ser um dos hormônios mais anabólicos (construtores de tecido) do corpo humano, superando até mesmo a testosterona em alguns aspectos metabólicos”, afirmou.
O endocrinologista explica que alguns atletas usam a substância para aumentar a entrada de nutrientes nas células musculares e acelerar o crescimento muscular.
“Alguns atletas a utilizam porque ela atua como um supercondutor de nutrientes. Ela maximiza a entrada de glicose e aminoácidos nas células musculares, o que acelera a síntese proteica, melhora a recuperação pós-treino e superpovoa os estoques de glicogênio (a energia guardada no músculo), dando aquele aspecto de músculo “cheio” e denso”, disse.
Apesar disso, o médico faz um alerta sobre os riscos extremos da prática.
“O grande problema é que esse ganho estético flerta diretamente com o risco de morte”, destacou.
O que acontece quando uma pessoa sem diabetes usa insulina?
De acordo com Dr. James Barbosa, o organismo de uma pessoa saudável possui um mecanismo natural de controle da glicose, que é rompido quando há aplicação de insulina sem necessidade médica.
“Quando alguém sem diabetes injeta insulina sintética, esse sistema é totalmente burlado. O corpo recebe uma ordem artificial e massiva para retirar a glicose de circulação”, explicou.
Segundo ele, como pessoas sem diabetes não possuem resistência natural ao hormônio, a retirada de açúcar do sangue acontece de forma extremamente rápida.
“Como não há uma resistência natural à insulina (comum em diabéticos tipo 2), as células limpam a glicose do sangue de forma extremamente rápida e violenta”, afirmou.
O endocrinologista acrescenta que o fígado tenta compensar a queda glicêmica, mas muitas vezes não consegue responder na mesma velocidade.
“O fígado tenta compensar ativando a glicogenólise (quebra do estoque de glicose) e a gliconeogênese (produção de nova glicose), mas a quantidade injetada geralmente supera a capacidade de resposta do fígado, jogando o corpo em um estado de colapso energético”, pontuou.
O que é hipoglicemia?
O médico explica que a hipoglicemia ocorre quando os níveis de açúcar no sangue ficam abaixo do normal e podem evoluir rapidamente para uma emergência médica.
“Clinicamente, a hipoglicemia em adultos é definida por níveis de glicose no sangue abaixo de 70 mg/dL, tornando-se grave abaixo de 54 mg/dL”, disse.
Segundo o endocrinologista, o cérebro depende continuamente da glicose para funcionar e não possui reserva própria de energia.
“O cérebro é um órgão metabolicamente caro: ele consome cerca de 20% da energia do corpo, mas não consegue armazenar glicose. Ele depende de um fluxo contínuo vindo do sangue”, explicou.
Ele alerta que a queda severa da glicose pode provocar danos irreversíveis em poucos minutos.
“Quando os níveis caem abaixo do limiar crítico, os neurônios começam a falhar por falta de ATP (energia celular). Se o quadro não for revertido rapidamente com glicose injetável, ocorre a morte de células cerebrais (necrose neuronal). O desfecho pode ser o coma prolongado ou a morte cerebral em questão de minutos”, afirmou.
Quais são os sintomas?
Segundo Dr. James Barbosa, os sintomas costumam evoluir em duas fases. A primeira é uma resposta do organismo tentando reagir à queda de glicose.
“Ocorrem quando o organismo percebe a queda e libera uma descarga de adrenalina e noradrenalina para tentar forçar o fígado a liberar açúcar”, explicou.
Entre os principais sinais estão suor frio, tremores, taquicardia, ansiedade súbita e fome intensa.
Na fase mais grave, o cérebro começa a sofrer diretamente os efeitos da falta de energia.
“Se a glicose continua caindo, a falta de energia afeta diretamente as funções corticais”, disse.
Nessa etapa, podem surgir visão embaçada, fala arrastada, confusão mental, desorientação, perda de coordenação motora, sonolência intensa e perda de consciência.
Hipoglicemia pode matar durante o sono?
O endocrinologista afirma que sim e cita um fenômeno conhecido informalmente na medicina como “Dead in Bed”, expressão traduzida como “Morto na Cama”.
“Quando o atleta aplica insulina (especialmente as de ação lenta ou intermediária) antes de dormir, ou erra o cálculo de carboidratos da última refeição, a hipoglicemia pode se desenvolver na madrugada”, explicou.
Segundo ele, durante o sono profundo, os sinais de alerta podem não ser suficientes para despertar a pessoa.
“Durante o sono profundo, os sintomas adrenérgicos de alerta (como a ansiedade e os tremores) muitas vezes não são fortes o suficiente para acordar o indivíduo”, afirmou.
O médico alerta que o quadro pode evoluir silenciosamente até um estágio fatal.
“A glicemia continua caindo silenciosamente até atingir níveis neuroglicopênicos críticos, desencadeando convulsões na cama, coma e parada cardíaca sem que a pessoa tenha a chance de reagir ou pedir ajuda”, concluiu.
Fonte: Portal Leodias
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